Segunda, 29 Julho 2013 14:53

Amapá em Brasília

Por Ana Miranda*

 

Imagine a floresta amazônica, um   rio passa entre árvores, pássaros gritam, barcos navegam contra o pôr do   sol... Os nomes dizem muito: Xarapucu, Afuá... Um menino viaja pelas águas,   descobrindo o mundo. Ele conhece a alma das matas, viveu sempre entre as   sombras misteriosas daquele reino encantado e perigoso, sem medo, é um ser da   floresta. Vai morar na periferia de Macapá, onde há escola, e trabalha   vendendo jornais e frutas e loterias para ajudar nas despesas da família   pobre. Entra num seminário de padres italianos humanistas, mas não vai ser   padre; seu fascínio é a política: grita contra a opressão da ditadura, entra   para a Aliança Libertadora Nacional, vai de encontro a Marighella, estuda   economia.

Casa com uma moça linda, nascida   por mãos de parteira, que viveu a apartação cruel entre pobres e ricos   durante os anos em que morou numa mineradora norte-americana encravada na   floresta, em Serra dos Navios. A doçura do casal é comovente, ambos com   traços indígenas no rosto, austeridade e modéstia no vestir, aparência   frágil, mas de uma força extraordinária. Sonhadores, vivem para melhorar o   mundo. A caminho de uma região de extrema pobreza, para onde vão fundar uma   resistência, são presos. Ela espera uma criança, tem já uma imensa barriga.


  O que acontece a partir dessa prisão está escrito num livro de memórias, que   acaba de sair: Florestas do meu exílio. Além de contar criteriosamente a saga   vivida pelo casal, com sua filhinha, entre fugas dramáticas, perseguições,   torturas de naturezas várias, vidas subterrâneas que fazem lembrar as cenas   mais terríveis de Dickens, Conrad, Victor Hugo, até mesmo Graciliano Ramos ou   Kafka, o livro tem outra virtude: revela um Brasil e uma América Latina “que   poucos conhecem em todo seu encanto e rudeza, entre florestas, cumes andinos,   pueblos, vinhedos, com suas canções, insurreições, fomes, tragédias e   soluções de vida”, como escrevi nas orelhas do livro. “Vemos vilezas e   horrores, mas também o dom humano de amar, apoiar, acreditar, lutar por um   ideal; pessoas que nada possuem e são capazes de doar, desafiar gigantes,   arriscar suas vidas”.
 
  Esse casal, hoje, vive em Brasília, e tem uma biografia da maior retidão,   pela veemência de sua fé e firmeza e lealdade. Ela é Janete Capiberibe,   deputada por seu estado, o Amapá, e ele, João Capiberibe, senador da   República e autor das memórias.
 
  Jamais abandonaram suas crenças, nem as florestas. Depois do sofrimento de   oito anos no exílio, ele foi governar o Amapá, e o fez com o conhecimento e   amor nascidos no coração daquele menino; e ela, representante eleita,   retribuiu o que havia aprendido com o povo. Trabalharam sempre contra os   predadores das florestas, das cidades e dos orçamentos públicos; a favor das   crianças pobres, mulheres, parteiras, da gente simples que vive nas matas   produzindo mel, açaí, farinhas, colhendo castanhas, dos índios, pescadores,   seringueiros, e toda a gente boa do Amapá.


  Outro lado bonito do livro Florestas do meu exílio é a voz do autor. Mesmo   numa situação tão extrema, é uma narrativa sensata, íntegra, aguda, capaz de   compreender as razões mais profundas dos sistemas e das pessoas, não apenas   as almas que auxiliam, como o lado mais vil da fome dos lobos. Uma voz   paciente, corajosa, obstinada, moderna, que ainda sonha e acredita.


  “Esse casal, hoje, vive em Brasília, e tem uma biografia da maior   retidão, pela veemência de sua fé e firmeza e lealdade. Ela é Janete   Capiberibe, deputada por seu estado, o Amapá, e ele, João Capiberibe, senador   da República e autor das memórias”

 

*Artigo da escritora e jornalista Ana Miranda, publicado em sua coluna no Correio Braziliense (27/07)

Ler 11404 vezes
bannerda tv

PRESTAÇÃO DE CONTAS 2017

00000001

capi sustentavel

livro morte nas aguas

capi youtube
Sua ideia pode virar Projeto de Lei

Newsletter

  1. Twitter
mais-noticias

Endereço

Ala Sen. Afonso Arinos - Gab. 08
CEP: 70.165-900 Brasília/DF
Telefone: (61)3303-9011
Fax: (61)3303-9019
Email:  O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.